17 Dec 2016

A grande beleza da despretensão

por Carlos Cavallini

Inspiração. O verso chega, o corpo reage. A música toca, a pele responde. E então surge o elo entre o artista e o ouvinte, que recebe este sentimento traduzido no que costumamos chamar de verdade. Esta palavra encontra-se no cerne da visão romântica da música onde o indivíduo transforma-se em “estrela” e passa a viver apenas do seu “dom”. No entanto, a ideia de tornar-se um “astro” está cada vez mais enfraquecida. A herança do movimento punk através da ideologia “do it yourself” (faça você mesmo), resultou na participação ativa dos músicos na produção, distribuição e divulgação do seu trabalho. 

    

O pensamento “façamos juntos” é uma realidade neste cenário atual. O trabalho colaborativo vem dando corpo à concepção, difusão e consumo da música, principalmente após a facilidade de acesso à tecnologia antes dominado pelas grandes corporações. Neste sentido, o universo participativo parece ser mais propício ao encontro do “autêntico”. A instituição MPB, outrora grandiosa e imponente, sinaliza que o ritmo acelerado da produção em massa pode ser prejudicial para o encontro do “belo” e do “genial”. Isto irá refletir também na forma como mudamos nosso pensamento sobre a alimentação, como criamos novos modelos de moradia e reformulamos os espaços laborais na constante busca pela felicidade.

    

Em um cenário onde tudo parece já ter sido feito, a produção musical tornou-se mecânica. Os músicos superam os limites da técnica vocal e instrumental fazendo com que a figura do compositor seja peça-chave para a afirmação da identidade. O autor, portanto, torna-se consciente do seu papel em escrever a história e, para tal, busca um direcionamento estético. Porém, o esforço em seguir uma tendência é um vício perigoso da produção artística autoral no século XXI. Na intenção de apresentar um trabalho memorável, a composição musical também tornou-se automatizada. O que vai marcar a diferença, a meu ver, está na despretensão. 

    

O EP “ENTRE”, da cantora, multi-instrumentista e compositora Joana Bentes, destaca-se neste sentido. A despretensão descarrega o peso do heroísmo deixando prevalecer a inspiração. Provavelmente esteja neste ponto a grande beleza das cinco canções que compõem o “minidisco”. A capacidade técnica é indiscutível. Estão presentes todos os artefatos indispensáveis para o nascimento de uma “estrela”. Contudo, acredito estarmos diante de um trabalho que dialoga com o momento em que vivemos e dá um passo à frente extremamente necessário. Ao saber dosar o seu “dom” apenas para mostrar o que a inspira, Joana promove este EP em um projeto primoroso. É cada vez mais difícil descobrir uma saída dentro da imensidão de melodias, harmonias e palavras que já foram tantas vezes repetidas mas ela consegue mostrar que o segredo é priorizar o sentimento. E assim, sobra tempo para a história ser história.

    

O vídeo da canção que dá título ao trabalho, com concepção e roteiro da própria autora e direção precisa de Tati W Franklin e Suellen Vasconcelos, fez-me lembrar de um episódio pessoalmente bastante marcante. O etnomusicólogo estadunidense Anthony Seeger esteve por mais de 15 anos pesquisando o grupo indígena Suyá no Mato Grosso. Entre outras passagens publicadas no livro “Why Suyá Sing”, em 1987, o autor relata que teve todo o cuidado para captar o som mais “puro” do canto dos índios e almejava um efeito simples e sem enfeites. Quando lhes mostrou o resultado, foi indagado pelo grupo sobre quem eram aqueles. Não se reconheceram na gravação e foi aí que Seeger entendeu que ao enfatizar apenas o seu canto, os índios sentiram a falta do barulho das árvores, dos pássaros e do rio. Faltou prestar atenção na batida dos pés no chão, no movimento dos braços, dos cabelos e dos adereços. Tudo isso é música e deveria estar presente no registro. O mesmo não se passou em “ENTRE” onde os detalhes foram pintados em formas sonoras, e por isso todo toque importa. A voz gravada não precisava ser mostrada no vídeo. O que faltava era revelar o som que vem do corpo para chegar aos nossos ouvidos. Joana entra em Joana e consegue fazer com que cada acorde seja seu e cada palavra seja sua.

 

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Carlos Cavallini nasceu em Vitória. Atualmente, vive em Lisboa onde se dedica ao estudo da Etnomusicologia como bolsista de Doutorado através da Fundação pela Ciência e Tecnologia (FCT). Seu objeto de estudo centra-se no caso da Nova MPB no discurso dos profissionais da indústria fonográfica e da mídia em Portugal.  Há 9 anos, integra o corpo de pesquisadores do Inet-MD (Instituto de Etnomusicologia, Música e Dança) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

24 Nov 2016

A fruição do instante na música de Joana Bentes

por Ester Chaves

"Libra com ascendente em violão//muito céu pra pouco chão//".

Com essa descrição poética, é que a cantora, compositora e multi-instrumentista capixaba, Joana Bentes, se apresenta em uma de suas redes sociais.

A relação dos contrários, alto/baixo, o céu e a terra, não é vista apenas como extremos limítrofes, mas como medidas de expansão do próprio ser. Soa como um convite para o rompimento dos horizontes possíveis que, por vezes, atuam como prisões. 

A proposta é ser além do que se é. De dentro para fora, mesmo conscientes do quão pequenos e finitos somos, como expõe os versos da canção "Instante", parceria dela com o produtor musical Xuxa Levy: “sou pequena aqui/mesmo olhando de cima/ você me vê cantante/ sem medo de mudar”. 

A mudança é um dos temas-chaves do EP Entre (2016), o primeiro disco da carreira de Joana. “Entre”, que já é o “meio”, o “intervalo”, “o interior”, o modo de ser ou estar, em vias de, em trânsito, é também um passeio pela poesia das coisas ─ a captação das belezas cotidianas que levam à contemplação e ao questionamento sobre o que se é/está – um lugar de alternâncias – o espaço/tempo entre o agora e o devir: “você vê o céu todos os dias/e ele é sempre igual/cheio daquilo que você é”. 

O céu, cuja potência transformadora explode em matizes e contamina a nuvem “bomba atômica”, relaciona-se diretamente com os estados anímicos do ser. Os elementos naturais que condicionam a passagem do tempo, refletem nesse “eu-lírico cantante", que não se apavora com as mudanças. Na faixa "Entre", que dá título ao minidisco, o ‘eu’ se reconhece no ‘outro’ a ponto de perder-se, e vive, portanto, uma aporia. Se despedaça na metáfora pungente: “entrou em mim como um raio/o que ficou no meio?”

O ‘meio’, a ‘lacuna’, o ‘entre’ é o desconhecido. O vão. O que não se revela. O que escapa. O ‘breu’. Reconhecer-se no outro pressupõe um jogo de desvelamento e mistério. “Porque perceber é olhar, e captar um olhar não é apreender um objeto no mundo, mas tomar consciência de ser visto [...]” (SARTRE, 2003, P.333)

Na canção "Ceca", que significa lugar indefinido, distante, há uma consonância entre o ser e as coisas ─ o interior e o exterior dialogam, se fundem e entram em sintonia, formando o todo harmônico, a unidade geopoética. O tempo reúne todas as condições para a chegada do amor: “tô com você/tempo solar/sol que acerta”. Povoar o lugar distante, a ‘ceca’ (pode remeter ao próprio corpo do objeto amoroso), incompleto, deserto, que aguarda, ansiosamente, ser habitado por aquele que ama: “tenho um amor/sei que terá/deixe a porta aberta”. 

A provável receptividade do anfitrião não garante permanência. A passagem pode ser veloz como uma seta. Porém, há o desdobramento do ‘eu’ que veio para ficar e que, em algum momento, se transforma em seta no alvo: “seu beijo ouviu/simples soar/sal veia seca/". A explosão de sensações, inicia uma dança sinuosa de corpos. O beijo provoca e escuta as vibrações da pele; o sal, suor, a veia seca que se dilata e torna a pulsar com o calor do toque. O trocadilho: “sal veia seca”, dá margem ao “salvei a seca”. O lugar distante ─ o corpo árido salvo pela enxurrada de carícias. 

Em "Chuva", o descortínio das memórias fortalece a expectativa do reencontro: “e essa chuva que não para/podia te trazer pra mim/eu também posso ir”. Esse mesmo tempo chuvoso, que se abre para dentro de uma paisagem nostálgica, potencializa os sentimentos e resgata as vivências do passado, funciona também como elemento de projeção, onde há uma expectativa em jogo: “o tempo é bom/dá pra pensar em tudo que importa”. “O que importa?” O ‘eu’ que se pergunta em voz alta, já sabe a resposta: “a gente desliza fácil” / “(já falei que dá certo)”. 

A relação amorosa é perpassada pela dúvida. Há uma desconfiança sobre o ato da entrega, que culmina na afirmação da existência de um sentimento intenso, soberano e resistente: “você nem esperava que eu fosse me molhar assim”. “A gente desliza fácil” /” (já falei que dá certo”). Os sentimentos vão se intensificando no decorrer da canção. A chuva que respingava memórias, como uma transparente onda de afagos nas vidraças, agora irrompe numa incontrolável tempestade de emoções, que é a própria reverberação da ausência do objeto de amor: “você também é tempestade em mim”. 

Quantos nomes pode ter a saudade? Quantas cores? Fisionomias? Gestos? Vozes? "Saudade é amor", é uma canção que passeia pelos recônditos espaços da falta. A saudade que dói. Que é vazio. Memória. A saudade que é uma pessoa. Um lugar. Melancolia. Apreço. Amor. Ausência. Nuances que vão acentuando os rumores em torno desse sentimento que pode evocar sentidos totalmente contraditórios: “saudade que não dorme é amor”. “Evocar é trazer de volta, é presentificar o que se enuncia. É tornar próximo o objeto que está longe, com todas as vivências, percepções e sentidos que suscita, como destaca o filósofo Heidegger, no livro A Caminho da Linguagem (2011):

“Nomear é evocar para a palavra. Nomear evoca. Nomear aproxima o que se evoca. (...) A evocação convoca. Desse modo, traz para uma proximidade a vigência do que antes não havia sido convocado”. (HEIDEGGER, 2011, p. 16)

Convocar a saudade é senti-la outra vez, em toda sua efervescência e plenitude. Resgatar o que ficou perdido no espaço/tempo, mas que está sempre em vigência na memória do coração. Nomear a saudade é eternizar as experiências, realçando as categorias da afetividade, tornando-as inesquecíveis: “saudade tem um nome/saudade tem a cor/saudade que se forme é amor”.

Joana é artista das palavras, texturas, cores e sons. Em seu canto, evidencia e explora todas as possibilidades de enaltecer o que vibra, brota e toca fundo. Canta a potência do ser e os seus desdobramentos ─ o inaudito, a fruição do instante, o que é/será. A natureza e o cotidiano com todos os seus arranjos, suavidade e graça estão presentes nessa música movente, que representa de forma sublime todos os fascínios da poesia.

REFERÊNCIAS:

MARTIN, Heidegger. A linguagem. IN A caminho da linguagem. Trad. Márcia de Sá Cavalcante Schuback. 5ª edição. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista SP: Editora Universitária São Francisco, 2011.

SARTRE, J. P. O ser e o nada – Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Trad. Paulo Perdigão. Petrópolis, Editora Vozes, 2003.

07 Nov 2016

Joana Bentes e seu primeiro EP “Entre”

por Mariana Borba

 

Quando canta, Joana Bentes parece abrir uma porta. Seu novo trabalho: “Entre” não é necessariamente um convite, mas pode ser. O nome sugere um intervalo, um caminho de uma coisa a outra, como ela mesma diz. O EP produzido por Marcos Xuxa Levy apresenta cinco faixas com composições próprias da cantora e participação de músicos talentosos como Fernando Nunes, João Viana, Walter Villaça e Milton Guedes. O primeiro trabalho da artista capixaba, radicada em Brasília, não deixa dúvidas quanto ao potencial sonoro que a obra possui.

 

Talvez seja melhor aceitar o convite para escutar “Entre” sem se perder em significados da palavra em si. Joana usa as próprias sensações para falar e fazer música. “As palavras vão se encadeando de forma a trazer a melodia e ritmo com elas. Sinto muita conexão com as palavras”. Conexão essa que possibilitou a criação desse projeto. 

Pela vontade de registrar as composições, a maioria das músicas foi surgindo de uma vez só, no final de 2014. A artista conta que sente influência de atmosferas diferentes, tanto litoral, quando montanha, cidades com aspectos particulares. Entre uma ida e outra para São Paulo, nasceu “Instante”, primeira faixa do EP. 

 

A música “Entre” ganhou um videoclipe, lançado em novembro desse ano. Com a suavidade e delicadeza tanto nas cenas quanto nos arranjos, é possível enxergar essa linha entre a letra e as imagens, da própria cantora, que se completam em cena. “O vídeo acabou possibilitando explorar a música de outra forma, mais sensorial.  Pensar a relação como algo que se percebe nos detalhes”, explica a cantora.

 

É nesse universo intimista, que pode falar para milhares de pessoas, ou quantas couberem na sala, que Joana entrega a doçura de sua voz para quem souber aproveitar esse momento. Por essa possibilidade, a melhor coisa a fazer é entrar de vez nesse espaço e se deixar levar pela linha que percorre todas as faixas do EP. A preocupação é uma só, e simples: é sempre mais difícil escolher uma música preferida dentro desse caminho quando todas se mostram tão belas. 

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